
Há qualquer coisa nos Estados Unidos que eu conheço, que acho confortável. Deve ser o cheiro a baunilha, porque para mim isto cheira sempre tudo a baunilha.Deve ser a minha família cá. Com casas com alcatifa imaculada. Casas de banho compactas e cozinhas no meio da sala. Um jardim à frente e atrás. À volta também. Deve ser por andar tanto de carro e parar em lojas que são casas por si só. É de certeza do Dunkin’ Donuts, que Londres, Xangai, Valladolid e Lisboa sempre teimaram em me privar. É o merchandising como personalidade comunitária. É por usar mais maquilhagem aqui e pintar as unhas de sangue de boi, achar piada aos brilhos e folhos.É por sentir que me olham como Europa e por me perguntarem o que fazemos por lá. Não acreditam quando digo que sou vizinha da Amy Winehouse e que jantamos fora tantas vezes e a horas praticamente pornográficas.Dizem que tenho pronúncia londrina até quando falo português. Gosto disto. Sinto-me confortável aqui.Porquê?Casa,Comunidade,Igualdade.
Casa
Como arquitecta sou especialmente sensível à relação dos americanos com os espaços.Especialmente a própria casa.Where I come from, as casas são iguais até morrermos. Quanto muito substituímos um sofá quando ele já está muito coçadinho. Temos uma visão muito mesquinha no que toca ao nosso espaço. Mudamos com muito esforço. Uma casa é para a vida.E muitas vezes para a vida dos outros. A casa não é nossa. Tenho uma antiga e profunda alergia às casinhas portuguesas arranjadinhas,a cheirar a óleo de cedro e com armários de vidro com colecções de animais de cristal. Gosto de estantes de livros desarrumados na cozinha e na casa de banho, com a sala a cheirar a café.O quarto com os meus lenços pendurados no fundo da cama e andar por toda a casa como se estivesse só no meu quarto.
Os americanos gozam a casa. Mas não brincam,gozam mesmo. Tiram, partem, colam,põe parede, sobe mais um piso,substitui o miolo da casa de banho. Está sempre tudo impecável, não há cá móveis ratados ou serviços de jantar com cantinhos colados. Tudo impecável. O que não quer dizer neuróticamente arrumadinho. Mudam a casa como quem muda de espírito. Juntam uns amigos, compram umas cervejas,vão ao supermercado comprar bocados de casa e montam tudo em dois dias. Uma casa inteira em dois meses. Pá, mas não gosto desta sala.Manda-se abaixo!São maquetes vivas testadas em tempo real. Sabem imenso de construção. Têm uma excelente noção de escala. E de um dia para o outro,sem qualquer hesitação,vão viver para outro Estado. E com isto mudam de clima, geografia, tipo de construção. Nova vida,nova casa. Back to square one,sem stress!Thumbs up.
Comunidade
Vamos assumir que os americanos são uns falsos moralistas.É verdade. Vizinhos com vizinhas,patrões com empregadas,professoras com alunos, ao mesmo tempo que vivem o teatro da família perfeita.Isto é verdade. Nós na Europa ao menos não temos medo de dizer ao mundo que afinal com quem casámos não é a pessoa certa, com a dor social que isto traz, e siga para a frente que a vida é só uma..Aqui não.E creio que tem a ver com a limitação geográfica dos Estados Unidos, que os obriga a viver num casulo.70% dos americanos não têm passaporte, e não é frequente sairem do seu Estado.
Having said that, devo admitir que adoro o espírito comunitário, embora opressor. Gosto imenso desse sentimento de pertencer a um grupo que tem apenas uma coisa em comum. Ou o bairro, ou a equipa de baseball, ou um ‘bookclub’, ou gosto por Tupperwares.Seja o que fôr. Eles são bons nisso. Claro que depois dá disparate. Mas o princípio é de partilha e de identificação. Vibrar pelo que é nosso.Gosto mesmo disso.
Igualdade
Uma das coisas que mais me impressionou quando cá vim há 7 anos foi uma conversa que tive num jantar de família. Tinha acabado de conhecer uma nova aquisição.Uma americana que tinha casado há pouco tempo com um primo meu. Já não me lembro o que faz mas estávamos a falar de trabalho. ‘Então o que é que tu fazes?’, ‘Ah, eu estou na universidade a estudar para ser arquitecta’.’Uau, e o teu irmão?’.’O meu irmão é advogado’.Ficou parva.’Bem miúda, que grandes ambições!’. Fiquei a pensar naquilo. Depois comecei a viajar e a fazer perguntas, e juntei as peças. É que nos Estados Unidos, e ainda não conheci outro país que fosse assim e, infelizmente Portugal, é exactamente o oposto, uma pessoa pode ser o que quiser, e ser reconhecida por isso. Só tens de ter um ´skill´.És cabeleireira, és carpinteiro,mecânico, seja o que fôr. Se fores bom no que fazes a tua comunidade acolhe-te tal e qual como um juíz ou um médico. Estudares mais não faz de ti um membro melhor da comunidade. Seres bom é que faz. Gosto muito deste princípio.
Claro que depois há uma série de outras razões que me fazem não viver aqui. A futilidade, a ignorância, a obsessão pela aparência, a distância ao mundo, o diagnóstico pelo imediato.

Últimas notas sobre Boston,porque amanhã já é NYC.
-Toda a gente mete conversa contigo.Em todo lado, a toda a hora.
-É muito difícil encontrar comida saudável.A única que há disponível em todo o lado é fruta.Há muitos americanos que não comem peixe.Só em sushi,já cortado.
-A televisão só apresenta reality shows. Do mais básico e aborrecido que se imagine.Os telejornais não falam de Europa. O mundo é o Iraque.A televisão faz o papel de um cão.É companhia.
-Red Sox é uma doença. E contagiosa.
-Poucos projectos novos desde há 7 anos.A cidade em si mudou muito pouco.Dos imperdíveis, no topo: Institute of Contemporany Art of Boston -da Diller e do Scofidio.

Além, obviamente, do Carpenter Center do Corbu,da residência MIT do Aalto e do Museu Kennedy do Pei.
-Não há imposto sobre a roupa.
-Uma viagem de comboio custa mais que de avião.
-Grande parte dos Dunkin’ Donuts de Boston pertencem a portugueses. Conheci um senhor que tinha mais de 100.(Nota:Já tinha 70 anos,senão casava-me amanhã com ele)
-Tudo o que é oficial está traduzido para espanhol.